Resenha - música #1 - Perpetual Gateways, de Ed Motta, 2016.
por Gabriel Guimarães
E |
d Motta, o sobrinho do Tim Maia (comentário chulo, porém inevitável), vem sendo um nome comentado com certa recorrência nas redes sociais em 2022. O músico tijucano tem estarrecido o público com suas declarações polêmicas e pouco comedidas relacionadas ao mundo da música, gastronomia, cinema e quadrinhos. Aos mais desatentos, tem se sabotado, visto que acaba caindo no limbo que é se tornar meme, em decorrência das suas maluquices e atrocidades na internet, e, por consequência, invisibiliza seu talento — grande talento, inclusive — para novos ouvintes.
Em Perpetual Gateways, de 2016, Ed Motta realiza o desejo super de sua carreira: gravar com uma equipe inteira de músicos americanos. Músicos estes que, neste disco, fazem toda a diferença, dando sustentação e, principalmente, a linguagem musical necessária ao estilo de música que Ed Motta tanto busca.
1.Captains Refusal:
A faixa conta com uma bela introdução, um prefácio sonoro que precede uma história interessante: "You had your turn when the captain's refused / To see how the ship was burned that night". O piano aparece com clareza apenas na introdução, depois recolhe-se para o brilho dos outros instrumentos. O baixo é marcante e bem timbrado nos graves, as texturas ficam a cargo do Clavinet, que passeia no acompanhamento das linhas. Os sopros dão as caras em determinados momentos da música, trazendo respostas aos questionamentos feitos. A bateria é como manda o manual: bem timbrada e bem tocada. Notas coesas e com pegada. O destaque vai para o timbre maravilhoso e preciso do Fender Rhodes, para a composição vocal e para os vocalizes de ótimo bom gosto.
2.Hypochondriac's Fun:
Repete a formação da música anterior, mas desta vez com o piano mais presente. O pulo desta faixa está no bom humor da letra: "Can't believe their lack of taste improves / Simulate a thrill / Hypochondriac's fun, well done". De fato, há classe, porém, o que salva a música do esquecimento no disco é o improviso sem modéstia do piano na parte final, finalizando-a com dignidade e elevando o nível. Bom exagero.
3.Good Intentions:
Groove estonteante do baixo + envelope filter = combinação arrasadora! Um início perfeito. Começam a aparecer as aloprações harmônicas que amamos. Ed Motta não mede técnica vocal nesta faixa, uma ótima performance, cumprindo a extensão dos médios e médio agudos. O piano rouba a cena novamente. Os demais instrumentos mantêm o padrão instrumental altíssimo.
4.Reader's Choice:
Uma balada apaixonante para os apreciadores: "Adventurous snobs / The ones you have been praying for / Truth, you've been used". Ainda dentro dos acertos. A música soa prazerosa e conquistadora, causando uma sensação cinematográfica. O solo de trompete arrebatador dá um fim aéreo a faixa.
5.Heritage Déjá Vu:
Diferente. Esta faixa traz uma intenção rítmica dançante e gostosa. As frases feitas nos sopros acompanham bem os refrões, os deixando mais refinados. O piano começa com um solo discreto, combinando a improvisação com determinadas partes do arranjo, dando sutileza para a sua crescente e ficando mais complexo até o final da música. Existe um ápice aqui.
6.Forgotten Nickname:
"Softly / We leave our dreams / You asked me why / Every sentence was there for us / It could be true". Difícil escolher um destaque da letra desta belíssima canção jazzy. Ótima escrita. Harmonicamente primorosa. Ed traz sua voz também para o grave nesta faixa, mostrando sua versatilidade. O acompanhamento do piano é fino e o solo de flauta combina melancolia com esperança, tudo isso dentro de notas perfeitamente encaixadas nas nuances sonoras. A dinâmica dá o charme. Nesta sexta faixa, eleva-se o nível do disco — que já estava alto.
7.The Owner:
Começamos o show de jazz: quebradas e mudanças inesperadas. O tema é marcante e situa o ouvinte dentro da composição. Temos walking bass. A faixa soa como uma introdução para o que vem a seguir.
8.A Town In Flames:
O primor dos músicos americanos! A linguagem conquista. A faixa tem um ambiente caótico, não à toa: "A town in flames at risk / Save those books and wait / Soon you're bound to find a way / So real it's like grace". Todos os instrumentos brilham, como manda o figurino do jazz. Improvisos surpreendentes de flauta e Fender Rhodes. O término da música é no melhor estilo Whiplash: Em busca da perfeição (2014). Viradas imensas e gloriosas.
9. Remember Julie:
Aqui a dinâmica acontece. O jogo entre mezzo piano e piano trazem gracejo ao arranjo. A técnica interessante de canto falado transforma a voz de Ed nesta faixa, acompanhando os outros instrumentos em suas variações. Piano e sopros dominam os solos desta. O walking bass é um show à parte. Trabalho incrível de bateria nas acentuações.
10.Overblown Overweight:
A Última música do disco: não poderia ser menos. A letra é provocativa e faz jus ao seu posto, é bem escrita. "You have been trying some common sense / Just make sure / To make that false speech nevertheless / Should be cool / So who cares that what you're doing now / Might be dull". Esqueçam os fervorosos improvisos do saxofone, apesar de incríveis, perdem espaço para o scat singing de Ed Motta, relembrando seu tão querido Dwitza (2002). Era o que estava faltando, não poderia existir um disco dele sem o scat. O Fender Rhodes ainda tenta ultrapassar e quase consegue. Disputa boa para os ouvintes. Bom fight. Vencemos. "The new word in town is overblown and overweight".
N |
este disco, Ed Motta não faz questão nenhuma de sua brasilidade, coisa que naturalmente soaria pouco sedutora a mim. Poderia acarretar em um completo desastre se feito por um amador, mas não foi o caso. O trabalho é repleto do bom exagero americano, do bom gosto americano, da estética do americano. Porém, feito por um brasileiro, um carioca, um tijucano. É nosso.
Ficha técnica disponível em: www.discogs.com
Nota: 4.7
Fim.
o verborrágico
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