Resenha - música #2 - Five Leaves Left, de Nick Drake, 1969.

por Gabriel Guimarães

 

N

icholas Rodney Drake: gênio póstumo do folk. Uma quantidade considerável de entusiastas da música o descreve com importância semelhante a de Bob Dylan, nome indiscutível do gênero. Morto por suicídio e com fobia patológica dos palcos, Nick Drake faleceu sem sair do desconhecimento geral, anonimato este que agravou suas condições psicológicas e tornou-se a última angústia do incrível compositor inglês. Drake tinha consciência de sua genialidade. 

 

Five Leaves Left, de 1969, seu disco de estreia — lançou apenas mais dois depois deste —, é tido como fenômeno pela crítica atual. A construção é polida e extremamente madura poeticamente, com uma musicalidade invejável. Feito por um simples adolescente. 20 anos de idade. Universitário. Nick Drake chocou todos os amantes do folk, depois de sua morte precoce, infelizmente. Em vida, não vendeu mais de míseras 5 mil cópias. 





 

1.Time Has Told Me:

A faixa começa surpreendendo. A ótima qualidade sonora é, por si só, um espetáculo. O violão de aço, clássico no folk, é executado com perfeição por Drake, as notas são todas claras e perceptíveis. A voz do compositor soa calmaria dentro de um contraste delicado com a letra melancólica: "Time has told me / You're a rare, rare find / A troubled cure / For a troubled mind". Harmonia gostosa. O piano, de timbre notável, acompanha em acordes. A guitarra aparece em pequenas e classudas frases. Baixo acústico. Sem mais descrições.

 

2.River Man:

Adentramos em um filme. Composição imagética e imersiva. O belo arranjo de cordas contribui primorosamente para isso. O baixo dita o ritmo do rio. Segure-se, existe um perigo de se emocionar aqui. Destaque para a letra: "If he tells me all he knows / About the way his river flows / And all night shows / In summertime". Reflexiva. Poesia espetacular. "Going to see the river man / Going to tell him all I can / About the ban / On feeling free"O violão continua incomparável

 

3.Three Hours:

Introdução maravilhosa de Drake. O baixo entra arrasador na conversa. Desta vez, temos percussão na música. O ritmo desta canção é envolvente, é corriqueiro, provoca uma árdua sensação de correr. O destaque vai para os dedilhados tocados com maestria e precisão. Existe uma espécie de interlúdio que dá um espaço inteiro para o duo violão e baixo. Benditos sejam. 

 

4.Way To Blue:

As emocionantes cordas voltam para este épico. Não há violão. "Don't you have a word to show what may be done / Have you never heard a way to find the sun / Tell me all that you may know / Show me what you have to show / Won't you come and say / If you know the way to blue?"Impressiona mais uma vez a caneta de Nick Drake e seus requintes de drama. Os três minutos desta faixa parecem ser curtos para uma composição como esta.

 

5.Day Is Done:

Outra composição que peca simplesmente por terminar rápido. As cordas permanecem comoventes. O baixo flutua livre pelo arranjo. O violão continua em alto nível. "When the day is done / Down to earth then sinks the sun / Along with everything that was lost and won"A poética da letra exime reflexões contundentes. 

 

6.' Cello Song:

Como mostra no nome, o destaque é do violoncelo, caminhando lado a lado com a composição vocal de Drake. O baixo e a percussão acompanham com classe para sustentar o brilho da melodia. "So forget this cruel world / Where I belong / I'll just sit and wait / And sing my song"

 

7.The Throughs Of Mary Jane:

Belas flautas são introduzidas no disco. A canção tem aspectos provincianos e se apresenta como retratos versando sobre um rosto desconhecido: "Her long lost sighs / And her brightly coloured eyes / Tell her story to the wind". A ambiência desta recai em harmonias alegres, sem a depressão anterior. A faixa anima-se no final e prossegue.

 

8.Man In A Shed:

Mantém o mesmo charme da anterior. Ainda com a beleza inerente da alegria. A letra é descritiva, mais um recorte fílmico dentro do arsenal do disco. "Please stop my world from raining through my head". O destaque vai para o baixo e piano, trazendo linhas diferentes das faixas anteriores, uma mistura de blues e folk. 

 

9.Fruit Tree:

O nome da faixa dá título ao box que contem os três discos de Nick Drake, lançado em 1979. Nela, o compositor relata sua angústia dentro do pensamento incerto da fama: "Fame is but a fruit tree / So very unsound / It can never flourish / Till its stalk is in the ground / So men of fame / Can never find a way / Till time has flown / Far from their dying day"Praticamente um preanuncio de sua morte derradeira. Curioso. A música percorre o mesmo padrão estético do disco. 

 

10.Saturday Sun:

O arranjo chiquérrimo desta canção termina o trabalho com chave de ouro. A música tem ar de final. Nesta, o piano dita a composição e permanece em brilho. A única faixa do disco com bateria, o timbre é sutil e com afinação alta. O baixo continua categórico e a adição do vibrafone foi perspicaz, carregando suavidade em suas aparições. Poesia elegante. "Saturday Sun won't come / And see me today / Think about stories / With reason and rhyme / Circling through your brain / And think about people / In their season and time / Returning again and again".

 

N

ick Drake esbanja sensibilidade e equilíbrio em suas canções. Sua melancolia foge do padrão melodramático e adentra na compleição mais íntima de sua própria existência, da existência do outro. Há filosofia em sua poesia, e de alto nível. Há requinte em sua composição. É possível verificar com os próprios ouvidos e sentimentos a minúcia dantesca deste trabalho. Foi sublime. 


Ficha técnica disponível em: www.discogs.com


Documentário A Skin Too Few: The Days of Nick Drake (2000): www.youtube.com


Nota: 5.0

 

 

 

 

Fim.

 

 

 

 

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