Manifesto #1 - Referências e seus limites: a síndrome do papagaio na produção cultural amapaense.
por Vinicius Barriga
ilustração de Salomão Cardoso
edição de Gabriel Guimarães
Partindo do quadro sintomatológico da dita cuja, o primeiro sintoma, e, talvez, o mais característico desta síndrome é a incapacidade de se pensar a si próprio e a realidade circundante utilizando da própria capacidade criativa. E não! Não se trata de um transtorno psicológico ou cognitivo etc. Conforme argumentaremos, se trata de um transtorno de ordem cultural, da forma como se organizam e/ou articulam as relações entre as referências estéticas e o ato criativo no processo artístico. O sujeito perante a impossibilidade de usar suas próprias potências criativas visando o desvelamento da arte, precisa sempre procurar ou importar linguagens outras, totalmente estranhas a si, e desta feita acaba por descaracterizar a si mesmo, redundando numa auto castração artística. E o mais grave, esta síndrome é tão perigosa que o sujeito portador a encara como virtude, na inconsciência de seu real estado, os sintomáticos vangloriam-se dessa (auto)infâmia.
Mas lhes adianto, não se trata de uma afrasia, apesar da metáfora ser, em certo sentido, eficaz. Se trata da síndrome do papagaio, e o nosso objeto de discussão de hoje perpassa pelas suas implicações nas produções artísticas na cena cultural.
Mas poder-se-ia objetar: Vantos, tu estás em um plano por demasiado abstrato, seja direto. Acompanhe-nos até o final e entenda do que diabos estamos falando.
Caros leitores, a arte pela arte, ou a arte pura, ou essas doutrinas eurocêntricas e diletantes, partilham da crença de que a obra de arte seria uma criação criada por um criador incriado, como algo transcendental, cujas implicações perpassam, mais ou menos, como a gente vê nos textos pedantes em posts no Facebook e seus derivados, em que há uma verdadeira pantomima em torno da devoção religiosa a algum clássico, vejo muito do Bach, “oh, se Bach toca, deus chora e blablabá”, numa espiral de sentimentalismo acrítico e cego. Inobstante, textos estes escritos por moradores da Amazônia, periferia do Brasil, que por sua vez é periferia em relação ao resto do mundo. Acho que isso dimensiona bem a dimensão simbólica do colonialismo. Em tese, não há nenhum problema nisso, afinal as pessoas fazem o que diabos querem fazer, o exemplo se trata somente de um recurso ilustrativo da querela em questão, que irá se tornar inteligível ao final deste texto. Apesar de pessoalmente, achar esta postura bem jeca e ignomínia.
Com obra de arte criada por um criador incriado, quero dizer que se encara a arte de uma perspectiva religiosa e devota demais, e é justamente este mito que gostaríamos de derrubar, este ídolo de pés de barro. Temos o exemplo gritante da concepção do filosofo Kant sobre o belo, que seria um fim em si mesmo, aquilo que agrada universalmente. Então, um momento, um europeu do século XVI, definiu que o Belo é universal? É isso mesmo? É sim, meus caros, e todo mérito a Kant que deve ser lido de forma inteligente a partir de seu contexto, besta é quem o lê no século XXI, no Brasil, e leva demasiado a sério e de forma ingênua suas concepções, cometendo um auto anacronismo, repetindo as frases kantianas, ou de qualquer outro velho europeu, nos famigerados posts auto referenciais dos “intelectuais” midiáticos. Talvez, quem faz isso certamente está, muito possivelmente, com a síndrome do papagaio.
Afasto essa ideia de arte pela arte, pois é ultrapassada, é eurocentrada, não diz respeito a quem nós somos, nós os brasileiros, nós os amazônidas, este modelo estético é estranho a nós, posto que a ideia de arte pura, oculta os processos sociais e históricos que estão subjacentes a sua criação mesma. Oculta seu arbítrio, trata-se de uma concepção de arte particular que é universalizada pela hegemonia eurocêntrica, o que cria obstáculos para pensarmos em outras formas de arte, a partir de outros referenciais, mais condizentes a quem somos nós. |
sclarecidas as premissas iniciais, cabe-nos pensar no que seria essa tal síndrome que indiretamente já foi definida nas proposições anteriores. Bom, como o nosso inestimável amigo Salomão caracterizou na capa deste manifesto estético-político, comecemos pelo o “foda-se Nelson Rodrigues”.
Este polêmico escritor, cunhou, na década de 50, o conceito de complexo do vira-lata se referindo ao narcisismo as avessas do brasileiro, dirá Nelson Rodrigues: “Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.” Decerto, o teatrólogo revolucionário estava muito chateado com a derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da copa do mundo (1950), em pleno maracanã, quando elaborou isto.
Nós ousamos dizer que a síndrome do papagaio é um desdobramento contemporâneo do complexo do vira-lata. Em verdade, a síndrome opera uma inversão das características primordiais do supracitado complexo, isto em dois pontos: 1) O fator da voluntariedade, no conceito de Nelson Rodrigues, pressupõe intencionalidade, esta por sua vez se dá na dimensão consciente das ações humanas; a síndrome do papagaio é, em essência, inconsciente, posto que o acometido não faz ideia de que está submetido a ela. 2) O quesito da inferioridade, na síndrome do papagaio, por se desdobrar na dimensão inconsciente, transpassa para o consciente como superioridade. Quero dizer, o acometido jurando estar se apropriando da mais elevada autoestima, da superioridade, da autenticidade, na inconsciência que está de sua real condição, acaba por reproduzir as amarras e os signos da inferioridade e mediocridade, na incapacidade que está de romper com os grilhões do complexo do vira-lata transmutado em síndrome do papagaio. Trágico! Analisada pela perspectiva do campo artístico, essa síndrome apresenta contornos específicos...
estas semanas, acompanhando as redes sociais, assisti alguns curtas de uma amostra de audiovisual, uma produção em específico me chamou a atenção: trata-se do curta Ausência (2021). Como estava na famigerada pausa para respirar de um processo de escrita, isto na companhia de um cafezinho bem passado, pois bem, dei play.
As imagens iniciais articulam-se com uma trilha sonora acinzentada, como que preparando o espectador para a carga melancólica por vir. Uma cena em específico nos interessa, trata-se do encontro entre dois personagens: sub-repticiamente, sem um preparo prévio, o espectador é submetido a um fluxo intenso de citações continuas de autores e autoras clássicos que aparece sob a forma de um diálogo entre os supracitados personagens. De imediato, instaura-se um ar, artificial inclusive, de intelectualidade, ou pseudo intelectualidade, do tipo cult, diletantismo, das construções fraseológicas complexas, do “ó, como sou clássico”, uma masturbação narcísica do roteiro que, parece-nos, objetiva demonstrar, da forma mais explicita possível, o grau de profunda erudição do curta.
Em certo momento, um dos personagens dirá: “citar esses caras [se referindo a enxurrada de citações anterior] no nosso trabalho é qualificar tudo o que eles fizeram”. Isto provoca-nos, primeiro, uma questão fática a este curta: será que Van Góqui, eu digo Van Góqui mesmo, a língua portuguesa deve ser levada a sério, a pronúncia correta eu deixo aos holandeses, de qualquer forma a questão é: será mesmo que um Van Gogh precisa de uma maior qualificação do que já tem? Não seria mais interessante, do ponto de vista do processo artístico, rotar a perspectiva de forma a qualificar o próprio curta, em si mesmo, enquanto obra independente? Certamente, isto seria de maior bom senso do que gastar minutos em tela citando meia dúzia de autores que o grande público sequer conhece, eu próprio não conheço metade. De diletantismos já nos basta, queremos o gozo da poética de um modelo artístico alicerçado de forma a qualificar os aspectos da realidade circundante, a poética da Amazônia e dos amazônidas. Deixo com o google o papel de me informar sobre a história da arte.
O ponto é: essa devoção ao classicismo parece-nos exortar e tentar reavivar em pleno século XXI, e em terras amazônicas, tão duramente castigada pelos efeitos nefastos do colonialismo, o paradigma eurocêntrico da arte pela arte, cujo efeito perpassa pela desvalorização de referências culturais de nossa própria terra em detrimento da devoção nostálgica e pérfida a um modelo artístico ultrapassado.
O classicismo é necessário somente como formação básica, é importante conhecer, mas o conhecer para nós, do verborrágico, é conhecer pra subverter, subverter esse modelo de arte que é totalmente submisso aos velhos paradigmas, que precisa a todo tempo se afirmar citando X ou Y, e utiliza isto para autolegitimar-se. E essa autoafirmação pressupõe também sua auto negação, posto que projeta os valores para fora de si, ao referenciar em demasia, de forma que fica essa impressão “veja, citamos todos estes autores, ok? Isso é arte, posto que conhecemos todos estes caras”. Sem dizer que as citações não tem papel algum na compreensão da totalidade do curta, parecem estar ali somente como algo acessório. A devoção a tradição castra o poder criativo, engessado e preocupado que estão em citar e citar e citar, como bons papagaios!
A boa arte, para o verborrágico, é aquela que não precisa instaurar esta pseudo erudição como instancia legitimadora, é arte que vale por si mesma, que funciona sem projetar seu valor pra fora de si através de citações. A arte não está nas obras clássicas, está no cotidiano, na banalidade, nos imponderáveis da vida real, está nos traços etnográficos da rotina, como diria um bom antropólogo. A boa arte é aquela que proporciona uma perspectiva-outra, subversiva e inovadora, para a banalidade. A boa arte é aquela que pressupõe uma ode ao simples, por perceber que a simplicidade é o mais alto grau de complexidade. Fazemos aqui menção honrosa ao curta Açaí (2020) que retrata a base cultural local, a rotina de um povo, a variabilidade linguística nortista, e cujo valor está intrinsecamente relacionado a capacidade de ilustrar uma determinada situação corriqueira, sem necessitar de apelações diletantes, que dialoga com a rotina de várias camadas da população amapaense.
A síndrome do papagaio, um desdobramento contemporâneo do complexo do vira-lata, faz com que os referenciais artísticos sejam descolados da realidade do artista. Repetindo falas já faladas, citações já citadas. Não me interessa referência a autor X ou Y, é preciso voltar as coisas mesmas, e utilizar as nossas próprias potências criativas e fazer arte do cotidiano, de fazer arte sobre a sensibilidade do nós enquanto sujeitos históricos, arte do espirito do tempo, de algo realmente representativo de nós mesmos; do contrário, é só diletantismo e pseudo intelectualismo de gente que não sacou qual o papel humano e político da arte.
A síndrome do papagaio é a reverberação simbólica do colonialismo artístico. A síndrome do papagaio é a inversão do papel da arte em um país colonizado, que deve vangloriar suas raízes castigadas e não se devotar a estética alienante de raízes colonizadoras. |
Fim.
o verborrágico
|-----INSTAGRAM----|
overborragicoblog.blogspot.com
|---------BLOG--------|
contato.overborragico@gmail.com
|--------EMAIL-------|

Parabéns ao blog. Me lembrou o humor inteligente da falecida mtv brasil, do greg news, precisamos de reflexões assim. Abs compas!
ResponderExcluirExcelente, tem um humor pontual que me agrada, fico contente ao ler!
ResponderExcluirConfesso que li em voz alta para testar a minha dicção, que é horrível por sinal, e travei um bocado. Ótima leitura, agora sobre o tema tenho um comentário.
ResponderExcluirPor muitas vezes durante o meu processo criativo me vi CONSCIENTEMENTE trazendo traços que não faziam parte da minha essência e pensando que talvez pudesse ter me inspirado em algo, fato é, fumo muita maconha e talvez eu só esteja chapado!
Parabéns meninos. O texto me fez rir, refletir e ponderar. Me fez rememorar meus tempos na graduação lá com certeza tinha várias pessoas com essa doença. Abs rocha
ResponderExcluirMeninos, só um adendo: "a amostra (sic) de audiovisual" chama-se Festival Imagem-Movimento (FIM), festival amapaense de cinema que realizou em 2021 a décima sétima edição, sendo o mais antigo em execução em toda a região norte. Festival amazônida, completamente independente, surgido do movimento de jovens estudantes da UNIFAP em 2004. :)
ResponderExcluir