Prêmio Noni de Ouro #1: o melhor do pior da música feita em terras amapaenses.
por Gabriel Guimarães
curadoria por Vinicius Barriga
Heber Lemos
Nitai Santana
Anthony Barbosa
Ilustração de Salomão Cardoso
prêmio Noni de Ouro congratula as músicas amapaenses cujo a equipe d'o verborrágico selecionou, de forma carinhosa, e denominou, honrosamente, serem de qualidade mesma ou inferior a desta tão intragável fruta. O melhor do pior da música feita em terras amapaenses: |
1.Eu Tive um Sonho - Luke Vive em Marte:
A guitarra começa sem agredir tanto, efeito agradável. O bumbo entra: tudo foi por água abaixo. A artificialidade é tamanha que chega ao ponto de incomodar e provocar o desejo de pausar a faixa. Os timbres são bons, aceitáveis, quase conseguem disfarçar as linhas comprometidas pela falta de criatividade. A música coleciona momentos de pouca inspiração. Letra palatável para o estilo escolhido, porém, a quantidade absurda de vozes satura o vocal (tentativa falha de mascarar o canto demasiadamente semitonado). Prestes a terminar, antes de voltar para o tema, há uma parte em que soa interessante, mas se perde no mal gosto de uma infame e mal colocada palavra: "yeah!". Para ser sincero, esta faixa não mereceria estar aqui, não era dela que queríamos falar. A música que desejávamos contemplar se chamava Céu de Porto, do mesmo Luke Araújo, mas, talvez por ter percebido a psicopatia de sua atrocidade musical, o jornalista resolveu por exclui-la das plataformas digitais. Felizmente.
2.Página Nova - Ind'go:
Uma emulação de Jota Quest vinda da deepweb. Estética proposital? Não se sabe. A faixa é essencialmente bem gravada. Tudo está no lugar. O que arruína a música é o péssimo trabalho na escolha dos timbres — principalmente o das teclas — e progressões harmônicas, não soando condizentes com a idade mental dos músicos. A verdade é que o arranjo parece infantil, podendo adentrar tranquilamente em repertórios de DVD's no estilo Xuxa Só Para Baixinhos, com exceção da frase "Como um tiro de fuzil" em sua letra, que seria bipada pela classificação indicativa L. Por falar na escrita, a opinião sobre esta será adjunta de uma recomendação, do grupo de rap Facção Central, álbum de 2005: O Espetáculo Do Circo Dos Horrores. A cantoria também tem sua contribuição negativa para a tragédia sonora, o vocalista parece ter criado uma metodologia de dicção própria, onde substitui o som das silabas com a consoante D para a consoante R. Ex: ao invés de dizer "tudo", ele diz "turo". Fora alguns momentos em que ele parece gemer quando pronuncia as palavras.
3.Vívida - Vini Gonçalves:
Instrumental razoável dentro do que se propõe, mas ainda com o mesmo defeito das produções de Luke Araújo: a maldita bateria. A música coloca-se como uma verdadeira colcha de retalhos. A faixa possui pelo menos quatro refrões chiclete e algumas sessões diferentes, dando a impressão de que existe uma tentativa desesperada para que algo cole com o ouvinte. Cola. Negativamente. Se essa composição criasse vida, provavelmente se voltaria contra seu criador, fazendo jus a sua aparência monstruosa, no sentido de portar-se como um quebra-cabeças montado sem levar em consideração o encaixe entre as peças. O canto também incomoda aqui, quando o compositor sonora as sílabas das consoantes C, S e Z, adiciona um X inexistente. Ex: a palavra "você" é pronunciada "voxcê", "sempre" como "xsempre", assim sucessivamente. Ainda há, no meio da música, uma espécie de pregação hiponga (tão odiada por Frank Zappa), onde os instrumentos fazem questão de se desorganizar em detrimento da poética brega de Vini Gonçalves. Se existe um arrebatamento hippie, com certeza, aqui foi confundido com vertigem de pressão baixa ou AVC. "Mas a sua luz, a sua luz, amor, gera iluminação".
4.O Céu e o Inferno - Francisco Vaz:
O Inferno e o Inferno. Este deveria ser o nome da música. Apesar de não querer, por se tratar de um lugar comum, é impossível não comentar e criticar a falta de qualidade do áudio. Certo, existe a concepção low fidelity (por falta de recursos), o que ameniza a crítica neste aspecto, porém, a bateria ainda soa completamente desumana de se ouvir. Os pratos apresentam-se de forma tão tenebrosa, que mais parecem estar conectados a distorções e que isto tudo é de propósito, que foi especialmente feito para nos torturar. A má sincronização dos instrumentos também contribui para o crime. Mais uma crueldade para o hall de Francisco Vaz. "O que está abaixo de nós é o inferno".
5.City of Bomb - Bad Delusion:
Dos mesmos produtores de: traduzi as letras das músicas do Nirvana e disse que eram minhas. Bad Delusion é realmente uma desilusão horrenda, com o perdão do trocadilho. A captação não é tão ruim, a guitarra também não (tirando a parte ridícula em que o instrumento parece imitar o som de uma buzina de trem), nem o baixo, bateria idem, apesar de achar o rock Bon Joviano uma chacota no mundo do gênero. É questão de gosto, então isso está fora de análise. O que destrói toda a projeção de seriedade que esta composição um dia sonhou ter chama-se vocal. A mixagem dá a impressão de que quem canta está em uma sala diferente da que gravaram os demais instrumentos. Outro detalhe é de que o cantor parece estar a alguns bons metros de distância do microfone, causando uma sensação nefasta que ataca para mais do que apenas os ouvidos. Chega a perfurar o coração. Sem falar da pronúncia do inglês, que é absolutamente incoerente e estapafúrdia — ignorando o fato de se cantar em inglês em plena Amazônia. Não dá para entender nada. Não dá para levar nada a sério. Sejam bem vindos a "Cidy Ofi Bob".
6.Eu Não Sou Teu Amigo (demo) - Indiegentes:
É parcial e injusto analisar a demo de uma música? Sim. Quer dizer, talvez. A versão de estúdio resolve quase todos os problemas da faixa em questão: a qualidade do áudio, a sincronia da banda, o vocal dramático e absurdo. Mas, há um detalhe nesta querida demo que chama a atenção: o solo de guitarra (corrigido de forma parcial na versão de estúdio. Dá pra passar de ano). Particularmente, sou fã de solos em que o instrumento varia, tendo momentos no outside. Não é o caso aqui. O solo desta música está, simplesmente, totalmente fora do tom. Sim. Absolutamente fora do tom. O problema não é errar aqui e ali, está tudo bem, ninguém aqui condena erros corriqueiros, mas errar o tom do solo inteiro? Esqueçam todos os outros defeitos da faixa, a maior falha desta não chega nem a ser o solo em si. O problema está na falta de companheirismo dos outros integrantes da banda. Alguém devia ter avisado o guitarrista sobre o seu solo completamente esquizofrênico. O solo está em outro lugar. A banda está em uma, ele em outra. Largaram o pobre solista em uma região obscura. Isto sim é uma verdadeira nota de repúdio. Um não a falta de amizade entre os músicos da banda Indiegentes.
7.Garota - Macacos Pelados:
Malhação ID (2009). Imagens da série da Globo formam-se no ar quando Garota toca. Estética bizarra. Mais uma para a galeria da máxima: se fosse pior, seria melhor. Este tipo de composição exige a galhofa, a falta de técnica, o despeito para com o metrônomo. A boa tocada é inimiga do indie, não combina com o estilo. Os Macacos Pelados erraram por gravarem bem? Sim! Todo demérito! Deviam ter tocado pior, pois a qualidade traz consigo a seriedade, é aí que a música falha, porque almeja ser séria, porque tenta cruzar a barreira da comédia. O voo deveria ter sido mais baixo. Continuando. Na letra, vemos um caso frequente em Macapá: o tipo que se fosse escrita em inglês e tocada por qualquer banda que soe parecido ao Arctic Monkeys (ruim), seria aclamada pelas multidões. Como está em português, soa ridícula. "Garota, cheia de contradições / Nem releva suas ações / E faz eu me sentir um otário" - "Girl, full of contradictions / It doesn't even care about your actions / And makes me feel like a sucker". Fica mais maneiro quando não sabemos o que eles estão dizendo, não é? O vocalista fez a sua parte, não é de todo ruim. Pausa dramática. Aguarde. 1, 2, 3: "Lá fora!".
Menções honrosas:
1.Kybalion - Aldryn Amaral:
A faixa ultrapassa os limites da audibilidade, é impossível de ser analisada. Ruim que dói.
2.Mamacita - Felipe Sena:
O astro do pop amapaense: Felipe Sena. Seus talento$ são inegáveis. Em Mamacita, fica clara a tentativa do produtor em sabotar o gênio. Por malícia ou falta de referências musicais, a faixa foi moldada nos padrões harmônicos e melódicos do ocidente. Felipe Sena transcende isso. Suas linhas vocais adentram regiões microtonais, trabalhado sua técnica dentro da combinação entre a música oriental e o primor categórico do jazz. Os outsides vocais não foram compreendidos pelo produtor. O artista foi mal produzido.
3.Tudo Pode Acontecer - Faype:
A seleção desta música se deu através do apelo da curadoria. Foi a contragosto. O editor que vos escreve gosta do Faype. Eu gosto do Faype! "Me mostre sua personalidade / Chega junto, eu não mordo não" – Intenção Real 2.0.
A |
crítica sempre ocupou um lugar de importância indiscutível no desempenho da criação em geral. Seja disruptiva ou não. O prêmio Noni de Ouro nada mais é do que isto personificado. A arte é, de forma clara e objetiva, parcial. Se constitui de gostos, preferências, julgamentos. O posto d'o verborrágico não é impor o seu pensamento qualitativo em relação ao outro, ao diferente. É simplesmente assumi-lo, verbaliza-lo em público à luz de sua própria consciência. A consciência que faz parte do ser de todo humano pensante, mas que aparenta estar adormecida, ou pior, cega. Não se diz mais, verdadeiramente, as opiniões, na tentativa árdua de manter um status quo demagogo, diletante e absurdo. Todo mundo é gênio. Todo mundo é bom. Nada é ruim. Posição que ocasiona a maior angústia da vida do artista: a ansiedade. Nunca sabemos quem está nos dizendo a verdade, se o publicado é, de fato, agradável. As coisas deixam de ser críveis, os escritores, músicos, compositores, pintores, os artistas. Todos nós caímos na infame armadilha de não sabermos o que realmente se acha sobre nós.
Se os aplausos não são de todo verdadeiros,
que sejam, ao menos, as vaias sinceras.
Fim.
o verborrágico
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Sensacional! Vou ouvir todas. ❤️
ResponderExcluirGaroto de coragem, estou ansioso para ouvir os seus trabalhos então♥
ResponderExcluirOs caras esqueceram de colocar as próprias músicaskkkkkk
ResponderExcluirAnsiosa esperando uma parte 2 com as músicas de vcs 🤩🤩🤩🤩
ResponderExcluirCada música pior que a outra! KAKOAKAKA vcs são originais e eu boto maior fé nisso!
ResponderExcluirAnsiosa esperando uma parte 2 com as músicas de vcs 🤩🤩🤩🤩/2
ResponderExcluirFaltou "A canção de amor de um viajante das estrelas" da banda O sósia. Vocal péssimo, qualidade da música terrivelmente ruim e letra xôxa demais. Com o nome criativo da música a gente até espera algo bom, vocalista parece estar perdendo a vida no decorrer da música, impressionante (decepcionante).
ResponderExcluirouça aquela velha canção que toca no seu radinho
ExcluirEsperando a próxima crítica da Lady Whistledown de Macapá kkk
ResponderExcluirAo cruzarem as passarelas de pedestres, prestem bem atenção para todos os lados! 🤣
ResponderExcluirParabéns não apenas por essa premiação bem humorada e pela ideia do blog meninos. Fazia tempo que não via iniciativas assim, vc faz resenhas, textos bem humorados como a da doença do papagaio que achei uma leitura rigorosa mas ao mesmo tempo agradável e agora esse prêmio que achei o nome genial. Sinto que vieram para ficar. Abs do rocha
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