Resenha - música #3 - Academia de Danças, de Egberto Gismonti, 1974.

por Nitai Santana


E

gberto Gismonti Amin, mundialmente conhecido como Egberto Gismonti – um dos compositores mais grandiosos da história da música. Nascido na pequena cidade do Carmo, Rio de Janeiro, começou a estudar música muito cedo. Aos 5 anos de idade já tinha aulas de piano, flauta, clarinete e posteriormente começou a se interessar pelo estudo do violão, pela música brasileira e folclórica. 

 

Em 1968, aos 21 anos de idade, Egberto já se mostrava um exímio arranjador e, no mesmo ano, participou do Festival Internacional da Canção (FIC) com a música O Sonho, onde alcançou um certo reconhecimento e respeito por sua originalidade, e pelo incrível fato de saber escrever arranjos – sim, no Brasil existiam pouquíssimos arranjadores na época. Alguns artistas estrangeiros estavam presentes no FIC, dentre eles a atriz e cantora Marie Laforêt, que o contratou para atuar como arranjador e maestro da orquestra que a acompanhava e em 1969 partiu para a França.

 

Na França, mergulhou profundamente na música erudita: serialismo, dodecafonismo, piano, harmonia, análise musical etc. Estudou com ninguém menos que Nadia Boulanger – professora de Burt BacharachÁstor Piazzolla e outros grandiosos músicos. 

 

Na década de 70, retorna ao Brasil e se dedica à música brasileira e instrumental, gravando discos estratosféricos. Infelizmente a indústria fonográfica brasileira não suportou a genialidade e o estilo inovador de Egberto Gismonti, já que suas músicas estavam fora dos padrões para se tocar nas rádios e as vendas das cópias de seus discos eram baixíssimas, o que levou-o a procurar por selos e gravadoras europeias – fato pelo qual Gismonti é mais conhecido na Europa do que no Brasil. 

 

Academia de Danças, de 1974, seu oitavo disco de estúdio e último disco lançado pela gravadora Odeon, é um dos mais importantes trabalhos de sua carreira. Egberto imprimiu tudo o que havia aprendido sobre música neste disco. Até hoje este trabalho soa super sofisticado, conseguindo transitar e agradar vários nichos: rock progressivo, jazz, fusion e afins. Ao mesmo tempo é inclassificável, pois transcende qualquer rótulo estilístico. 

 

O letrista de todas as canções do disco é Geraldo Carneiro (escritor, poeta, dramaturgo). Suas letras de alta performance literária enriquecem ainda mais o disco. Inclusive foi Geraldo quem produziu e batizou o disco de Academia de Danças, e o título das canções foram extraídos de versos do clássico Mil e Uma Noites





 

1.Palácio de Pinturas: 

A faixa vai se desenvolvendo como uma paisagem: começa com acordes de tensão executados por instrumentos de cordas, dando uma espécie de sensação horizontal ao ouvinte. É interessante notar a dinâmica da orquestração proposta por Egberto – fazendo uma movimentação típica de trilha sonora. Essa intro vai se desenvolvendo e inesperadamente o violão entra com um lindo e virtuoso dedilhado, juntamente com o vocalize angelical de Dulce Nunes, delineando melodias sublimes. Já de cara estamos no céu! As cordas continuam desenhando melodias ricas e sem timidez, ao passo que a base já chega forte, colocando todo o sentido opulento que a música merece.

 

2.Jardim de Prazeres:

Aqui chegamos no mais rico experimentalismo. Aos amantes de rock progressivo, esta música é perfeita. A bateria de Robertinho Silva é um show à parte. As melodias nos transportam a tradições orientais. A letra enigmática, abstrata, mística, surrealista ou qualquer outro adjetivo que você queira dar, nos embriaga com sua riqueza poética e sua perfeita métrica: “Dançar a ciranda / Dançar a ciranda do sono / Dançar a ciranda do sono perdido na noite / Rodar no balanço / Rodar no balanço do mundo / Rodar no balanço do mundo de sombras e / Cachaça / Guardar o segredo / Guardar o segredo da lua / Guardar o segredo da lua afogada no poço”. A música vai terminando numa improvisação modal de baião (ritmo nordestino). Uma loucura que só a arte consegue nos proporcionar.

 

3.Celebração de Núpcias:

Orquestração de cordas novamente, violoncelo celebrando o arranjo. A voz de Dulce é a coisa mais doce e bela nesta melodia e, em certo ponto da composição, a melodia salta junto ao contrabaixo enquanto os violinos vão contrapondo com a técnica de pizzicato. Ao final, a bateria acompanha de forma magistral toda erudição da composição.

 

4.A porta encantada:

Música totalmente fora da caixa. Arranjos dodecafônicos, complexidades, melodia difícil de encontrar, harmonias fazendo papéis rítmicos e melódicos. Importante notar o uso de sintetizadores se amalgamando com as cordas, e o violão maluco de Egberto se sobressaindo, solando e dedilhando quase sem respirar. Timbres maravilhosos. Faixa condecorada para os amantes do bside

 

5.Scheherazade:

Voltamos ao tema de Jardim de Prazeres, só que com alguns elementos novos: sintetizadores quentes, Arp Odyssey, sons de torcida. Bateria e contrabaixo sempre numa perfeita simbiose, falando a mesma língua. 

 

6.Bodas de Prata:

Esta faixa nos coloca em outra dimensão de profundidade. Talvez uma das faixas mais melancólicas do disco, ou melhor, uma das mais belas do disco. O piano já sinaliza sua rebuscada harmonia – caminhos harmônicos totalmente não convencionais, tonalidade menor, atmosfera sombria, andamento pra trás (música lenta). Canção digna de se pôr no meio do disco. “Ouça mais / Ouça outra vez / Deixe a marca no lençol / Há um estranho ruído no jardim / Tente ver entre os cristais”. Egberto musicou a letra exatamente como ela pede: narrando uma história somente com voz, piano e órgão. A finalização de Bodas de Prata é uma das coisas mais emocionantes que alguém pode ouvir. 

 

7.Quatro Cantos:

Quando menos se espera, Quatro Cantos já emenda no final de Bodas De Prata, aliás, o disco inteiro é interligado como se fosse uma só música. Esta faixa é sensível, elevada, lenta; o piano abrindo um portal, já na tonalidade maior; versos irrecriáveis e intrigantes: “Todas as manhãs estendia roupa branca / Sobre o pátio com perfume de alecrim / E tecia no crivo todos os nomes do silêncio / Tudo o que a noite parecia retirar da escuridão”. Uma terapia sonora. Execução pianística perfeita, sonoplastias, sons de insetos, sons de vento, vocais femininos, flautas... Quatro Cantos.

 

8.Villa Rica 1720:

Esta faixa já tinha sido gravada no disco Água e Vinho (1972) em formato de canção. No Academia de Danças, Egberto fez um arranjo instrumental para esta faixa, sob regência de Mário Tavares. A orquestração é com o naipe completo de cordas – violinos, violas, violoncelos e contrabaixos, enquanto a melodia se transcorre no Arp Odyssey de Egberto. Coisa fina!

 

9.Continuidade dos Parques:

Música instrumental de altíssimo nível. Como diria um ditado popular de músicos: “porrada seca” já no início. Atenção, esta faixa soa prog, mas não tem guitarra. A formação é somente violão, contrabaixo, bateria e voz. É enérgica e truncada. Agressiva, mas folk. O que é mais incrível em Continuidade dos Parques é a progressão que acontece nos 50 segundos de som, saindo da dimensão visceral para uma melodia doce com um acompanhamento que só o Gismonti poderia propor. E ao longo da peça, a bateria vai se desenrolando em crescentes até se tornar uma coisa só. Coisa de gênio. 

10.Conforme a Altura do Sol:

Som pesadíssimo. O ápice da música instrumental. Gismonti toca uma flauta indígena nesta faixa, Paulo Guimarães toca a flauta tradicional e o querido Danilo Caymmi toca a flauta baixo. Bateria, piano e contrabaixo comendo soltos! Improvisação total. Som de gente grande.

 

11.Conforme a Altura da Lua:

Nada melhor do que este título para a faixa que encerra o disco. Elevamo-nos às alturas colossais. Expressividade genuína: flauta com melodias que nos remetem ao folclore brasileiro, ambientação de teclas atonais. Um mix de mistério, medo do desconhecido, beleza, dimensão astral, ancestralidade, imaginações. 

 

Obs.:

antes que eu me esqueça, este disco foi gravado em apenas 2 dias e em 2 canais.

 

 

E

gberto Gismonti é um vulcão de criatividade artística. Sua obra é grandiosa. É diferenciado, não por ser um multi-instrumentista ou por ter tido o privilégio de estudar com professores grandiosos, mas por conseguir traduzir, dar requinte e expandir a nossa música para o resto do mundo. Uma música que transcende tempo e fronteiras. 

 


Ficha técnica disponível em: www.discogs.com


Baixe o disco aqui: portrasdavitrola.blogspot.com


Nota: 5.0

 

 

 

Fim.

 

 

 

 

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