Manifesto #2 - A cegueira diplomática: o que o Prêmio Noni de Ouro pode dizer sobre Macapá?

 verborrágico

A cegueira diplomática: o que o Prêmio Noni de Ouro pode dizer sobre Macapá?

 

por Vinicius Barriga

ilustração de Danrlei Chagas

edição de Gabriel Guimarães 

25 de maio de 2022

 

Abaixo a verborragia! Diriam alguns injuriados por paixões franzinas, ao lerem o nefasto e intrépido PRÊMIO NONI DE OURO, eis a nomeação e deliberação, à luz pública, acerca do melhor do pior da música feita nestas pedantes terras. Esta premiação configurou-se como uma etapa lógica, senão teleológica, ou enquanto o desenrolar natural dos movimentos discursivos de um corpo de ideias que se propõe, primeiro, subversivo e, em seguida, transvalorante: se, em outros escritos, um dos fins últimos do verborrágico orientou-se por incutir critérios e códigos outros para a apreciação/decodificação estética do que é bom, autêntico e belo, evidentemente, a sistematização do que consideramos ruim, inautêntico e falseado é a propedêutica, o prolegômeno kantiano, quero dizer, o trabalho prévio para a consolidação das posições e perspectivas do moribundo Velho Rágico, esta persona non-grata. 

 

O movimento por nós encabeçado é semelhante a feitura do filosofar com o martelo, com algumas inversões: destituir, para em seguida reconstituir proporá Zaratustra com o Übermensch, o Além-Homem; somos apologéticos das marteladas enquanto método, entretanto, não nos interessa sujarmo-nos remexendo os escombros visando a restituição do que quer que seja! A utilidade do martelo é destituir para esmiuçar e conhecer, o novo surgirá das consequências correlatas; cabe-nos, somente, desvelar os pés de barro das obviedades proferidas por sujeitos acometidos pelos coleguismos acríticos, ou entalados pelas penas de papagaios; outrossim, nós afirmamos estes escombros em si mesmos, possuem valor intrínseco, os resquícios destas marteladas validam-se enquanto desveladores do vazio, este surge como condição mesma da criação! O que deve ficar claro e límpido é que não há proselitismo, tampouco fórmulas mágicas e absolutas: assumimos totalmente o idealismo parcial que nos orienta, não almejamos erigir uma tábula irresistível com 10 mandamentos, antes, propor-nos-emos um contra-sermão da montanha! 

 

Dito estas palavras iniciais, assevero: a substância empírica e o élan vital que animam este manifesto é estritamente baseado em uma abstração e apreciação crítica da reação pública ao prêmio Noni de Ouro, onde o seu caráter polêmico, satírico e burlesco possui uma utilidade sociológica, quiçá etnográfica: ao causar uma deformação e quebra das expectativas do imaginário público da cena musical em questão, a premente querela nonística acabou por revelar pontos de vista e fenômenos que estavam ocultos e obscurecidos pelo o que os fenomenólogos intitulam de suspenção (in)voluntária da crítica, inerente ao caráter rotineiro da atitude natural, isto é, tendemos a agir de forma irrefletida no cotidiano, enviesando a percepção, de forma a não apercebermo-nos dos diversos fatos e eventualidades sociais, e é neste contexto que a polêmica/conflito surgem como chaves epistemológicas vantajosas a uma apreensão analítica, posto que desvelam o caráter arbitrário das convenções cotidianas, como que numa ab-reação coletiva trazem à tona o que foi recalcado pelo inconsciente social, explicitam o que está tácito, vocifera o não-dito mas aceito e sabido por todos, entremente, expõe e escandaliza os SEGREDOS DE POLICHINELO!



Polichinelo é uma antiga personagem-tipo e burlesca da commedia dell'arte do teatro da Roma Antiga que resume em si mesmo a unidade dos contrários, há algumas versões de sua estória representando-o até mesmo como hermafrodita. ‘Segredo de polichinelo’ é o que todos sabem, mas ninguém o afirma.

 

Maffesoli, Michel. O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa, 2010.

 

Encaramos o prêmio Noni de Ouro, para além de seus méritos intrínsecos, sobretudo, como uma experimentação calculada, peripécia sociologicamente orientada, uma PROVOCAÇÃO – em memória ao saudoso Abujamra. Para utilizarmos uma metáfora inoportuna: o Noni nos serviu como um biossonar, este mecanismo bio-ecológico de alguns animais, entre eles o Rogério Skylab, que emitem ondas ultrassônicas no ambiente e, doravante, analisam de forma retroativa o eco que retorna, permitindo a ecolocalização. Como discípulos do Velho Rágico, nós emitimos verborragias estridentes visando especificamente, não as estridências em si, mas o ruído do eco que retorna, o que nos permitiu uma ‘sóciolocalização’ e a averiguação de uma série de postulados articulados antes da publicação, assim como hipóteses sobre algumas dinâmicas e processos inerentes a cena musical enquanto CAMPO de disputas simbólicas na acepção estruturalista/praxiológica. 

 

Destarte, a deformação controlada, cautelosamente operada por nós, objetivou captar os ruídos retroativos que surgiram sob a forma de comportamentos discursivos de diversos agentes individuais (pessoas) e coletivos (bandas). Tão logo deu-se a publicação do texto, adentramos em um processo de acompanhamento sistemático das reações do público. Pela própria natureza do meio midiático, no qual efetuou-se a divulgação, o zumbido das moscas da praça digital transmutou-se em diversas manifestações discursivas, ora de repúdio, ora de apoio, por vezes contraditoriamente de ambas em simultâneo, eis o burlesco polichinelo! Percorremos o Facebook, o WhatsappInstagram e o Twitter como argonautas virtuais em busca dos xingamentos, elogios, críticas, ponderações e tudo o que dizia a respeito ao prêmio.

 

O SEGREDO DE POLICHINELO: REPÚDIO PÚBLICO, RISO PRIVADO

De forma intrigante, a apreciação das reações culminara em determinados pontos paradoxais: recebemos um maior número de manifestos de apoio se comparado com o quantitativo de críticas, entretanto, as moções de júbilo chegaram até nós de forma privada, a maioria a partir de mensagens pessoais, proferidas de forma sigilosa e parcimoniosa. Poder-se-ia sintetizar as reações de aval na seguinte frase: 

 

“Obrigado por publicar o que sempre pensei e achei”

 

Confirmando nossos postulados prévios, estas reações ensejam a percepção de que já existia um consenso tácito, uma opinião não-dita generalizada, sobre a má-qualidade das músicas listadas pelo prêmio. Inobstante, o próprio fato de que estes elogios não foram publicizados, sob a forma de comentários públicos nas postagens de divulgação, mas enviados de forma privada nas nossas caixas de mensagem, exorta em si próprio uma questão instigante: se temos indícios o suficiente para entrever que há um consenso sobre a qualidade nonística das músicas premiadas, quais os fatores que tornam esta opinião amplamente difundida mas simultaneamente oculta, senão ocultada? O porquê isto não foi verbalizado antes de nós? A maioria concorda, mas ninguém admite, e se o faz é de forma escamoteada! Um verdadeiro segredo de polichinelo. 

 

Ficamos atônitos com a questão de como classificar tal consenso: é público no aspecto de ser generalizado, mas privado por ser tácito e não-dito? Que espécie de fenômeno é este que possui a contraditoriedade de reunir em si mesmo aspectos do privado e do público? Estávamos diante de uma aliciante e lídima unidade dos contrários, uma aporia! Inquirimos: seria o FANTASMA DE POLICHINELO assombrando o comportamento coletivo? Ou a sombra do COLOSSUS HERÁCLITO DE ÉFESOS promovendo subversões com sua dialética em solo tucujú? Ficamos com a impressão de que por estas terras é possível banhar-se duas vezes nas águas de um mesmo rio, o rio amazonas, com a condição de que a segunda vez seja no sigilo! 

 

Para exacerbar a epifania de instigações que nos assaltava no momento, deparamo-nos com a personificação desta unidade de contrários, trata-se de um caso paradigmático que encarna per se a ambiguidade dos fatos aqui perspectivados: um internauta repudiou com certa veemência nosso texto em seu perfil no Twitter, articulando todos os meandros da gramática do cancelamento, incluindo aspectos identitários, para decantar repúdio ao nosso suposto crime de lesa majestade, ao emitirmos verborragias enérgicas publicamente. No entanto, e aqui começa o paroxismo, nas terras distantes e criptografadas do Whatsapp este mesmo internauta PERDEU AS ESTRIBEIRAS rindo e cultuando a intrepidez do Noni de Ouro, isto com um dos participantes da curadoria, vangloriando-se e gozando do conforto da codificação protetiva desta rede de mensagens. Consideramos este caso em específico um tipo-ideal e uma manifestação particular de um padrão comportamental discursivo mais geral, extensivamente encontrado na socialidade amapaense e aqui não estou me referindo a talaricagem. 

 

Destarte, tudo se passa como se nas redes sociais de caráter mais público (TwitterFacebook) os sujeitos tenderiam a moldar seus posicionamentos, discursos, condutas e, máxime, a representação que fazem de si mesmos, de forma a corresponder e atender as expectativas normativas que o imaginário popular e a moralidade coletiva projetam e erigem como adequado e moralmente aceitável. Por outro lado, é precisamente nas redes sociais mais privativas (Whatsapp) que se encontra o recalcado, o ocultado e as reais opiniões e/ou intenções dos atores da encenação virtual, protegidos que estão da dinâmica algorítmica compartilhada e das redes intersubjetivas de censura/controle de plataformas coletivas como Facebook e Twitter

 

O VALOR DA PESSOA COMO REFERENCIAL ESTÉTICO ÚLTIMO

A substância textual do 1° Prêmio Noni de Ouro concerne estritamente a uma análise técnica, com certo rigor musicológico, das produções musicais, transpassada e expressa em uma linguagem satírica e ácida, condizendo com o modelo discursivo e humorístico que caracterizam o ETHOS do verborrágico e uma de suas razões de ser. Uma leitura isenta de paixões e atenta ao sentido intrínseco do texto, notará se tratar de uma crítica com vistas a contribuir para a constituição de uma cena musical porosa e autoconsciente. Este supramencionado sentido textual é objetivo, está lá, basta ler! Não está codificado, tampouco apresentado sob a forma de um enigma, é claro e autoexplicativo tal como uma receita de ovos mexidos. Digo isto para afirmar que uma boa parcela das reações de repúdio partira de uma total incompreensão dos objetivos maiores do prêmio: fomos acusados desde se promover “destruindo trabalhos alheios” – como poderíamos ‘destruir’ o que em essência é autodestrutivo? – até de reunirmo-nos em floresta densa para usarmos ‘drogas’. Sim, é isto mesmo! O perfil oficial de uma das bandas premiadas cometeu esta gafe, eis a transcrição literal: 

 

‘NÃO É PORQUE A GENTE NÃO VAI PRO TERRENO FIM DE SEMANA USAR DROGA QUE A GENTE DEIXA DE SER PARÇA’

 

Isto é absolutamente ininteligível, logo, não pode ser considerado uma crítica, trata-se de um ressentimento puramente reativo e nervoso, é uma reação primitiva e infantil a finesse verborrágica, o que diz mais respeito a irresolução de alguns processos psicossexuais primários de quem escreveu, refiro-me aqueles responsáveis pela inculcação da capacidade de desinvestimento objetal fundamental para a superação do narcisismo primário – o que é fulcral para boa recepção de críticas, isto se permitem-nos especulações psicanalíticas – do que propriamente a concretude de nossas ideias. No plano discursivo, este comentário se trata de um clássico e sem vergonha AD HOMINEM, este subterfúgio retórico desvalido: não havendo recursos e fatos concisos para refutar o argumento, comete-se a tolice de atacar pessoalmente o argumentador. Isto é desonesto, somente indigentes tomam a citada artimanha como válida! O mais sintomático é que no conjunto dos dizeres do perfil oficial da banda premiada, em nenhum momento – em nenhum momento sequer – houve uma construção argumentativa articulada e racional demonstrando incongruências e refutando os possíveis pontos frágeis de nossos dizeres, simplesmente não existiu! Simplesmente não poderia existir. 

 

Ao leitor interessado, pode acompanhar as respostas completas do Velho Rágico a banda, entretwitter.com

 

Trouxemos esta reação específica pois exorta uma imprecisão extensivamente encontrada nas reações de repúdio, qual seja, a incapacidade de distinguir entre críticas voltadas ao plano conceitual/ideias e ataques puramente pessoais. Indistinção categorial explícita em uma mensagem comovida, desta vez enviada por um outro integrante da banda progressista que lançou-nos um ataque conservador, divergindo do tom ressentido e raivoso da primeira mensagem, como que em uma dinâmica bad cop/good cop, perguntou-nos: 

 

Você tem algo contra a gente como pessoas?

 

A recorrência e recursividade desta interpretação típica que deleta a distinção entre críticas conceituais e pessoais, de forma a associar a crítica a uma obra como uma crítica direta a pessoa do autor, numa espécie de pessoalização das ideias e ideação das pessoas, recai em graves consequências para uma cena cultural que se quer eloquente, autêntica e instigante, isto na medida em que os critérios que se utilizam para apreciação estética deslocam-se das características objetivas e intrínsecas da obra, a arte ela mesma é desconsiderada, para recaírem integralmente na pessoalidade do autor, portanto,  pauta-se na relação com outrem, a PESSOA do autor. 

 

*

Eis uma situação hipotética ilustrativa desta dinâmica: um artista publica sua arte, trata-se de um amigo, logo, de forma irrefletida e automática, a obra em questão é tida como incrível, posto que o que está em jogo não é a obra ela mesma, em realidade pouco importa a qualidade desta, o que parece vigorar é a reprodução e vivificação dos vínculos que se tem com o artista, ora, elogiando a obra, elogia-se a pessoa do autor e a relação que mantem-se com ela. Portanto, cogitamos ser a pessoa do artista, não a obra em si, o critério último para avaliação estética de bens simbólico-artísticos nesta terra das bacabeiras. Pois bem, a situação hipotética não é tão hipotética assim.

*

 

De uma perspectiva etnográfica, esta dinâmica se apresenta como um mecanismo sociológico de coesão grupal e de reprodução dos vínculos de reciprocidade dos atores da cena. Porém, expulsamos este espírito um tanto imparcial do antropólogo, para invocarmos o espírito do crítico cultural que emite juízos de valor e é absolutamente parcial. Questionamos: como pode uma cena artística alicerçada neste coleguismo acrítico produzir bons artistas e boa arte? Como que este silêncio crítico pode provocar e instigar os artistas a cada vez mais superarem-se a si mesmos, capturados que estão pelo autoengodo do ‘tudo é lindo, tudo é maravilhoso’? No que contribui esta cegueira autoinduzida dos atores da cena para o avanço das qualidades do artista elogiado? Afinal, que amigo é este que prefere cegar-se, escamoteando suas reais opiniões, do que dizer a verdade sobre os méritos e, sobretudo, os deméritos da obra de seu correlato? 

 

O QUE O NONI DE OURO PODE DIZER SOBRE MACAPÁ?

Caro leitor e leitora, os fatos supracitados assumem uma perplexidade caso sejam interpretados do ponto de vista psicológico, como se a ambiguidade discursiva fosse um dado natural e intrínseco aos atores da cena musical, de forma que bastaria compreender as suas personalidades ou, eventualmente, o mapa astral, que as reações paradoxais ao prêmio Noni de Ouro embeber-se-iam de inteligibilidade. Entretanto, uma manifestação específica permitiu-nos um insight e ensejou a busca por uma chave interpretativa pautada em outro nível da realidade. Disse o internauta em uma mensagem privativa, referindo aos premiados alertou: 

 

Isso é um tiro no pé, depois você pode precisar deles 

Ao invocar a presença virtual de outrem, i.e os premiados, o internauta faz referência a rede intrincada de relações sociais inerentes a cena, isto tornou-se explícito quando insinuou esta possível necessidade ou dependência futura em relação aos ganhadores do Noni, partindo da noção de que o fato de se ter tecido uma crítica inviabilizaria o acesso a hipotéticos ‘favores’, eventos, espaços, conchavos, ou a famosa panelinha! Destarte, dado isto, passamos a procurar as evidências, não mais no individualismo psíquico, mas no plano macrossociológico que engloba as citadas relações sociais presente no contexto em questão, logo, percebeu-se que o ponto fulcral não concernia a indivíduos, mas tratava-se das relações entre estes, afinal, as relações são mais importantes do que as coisas relacionadas. O paradoxo psíquico-comportamental dissolve-se na leitura sociológica dos fatos! Mas afinal, o que a querela nonística pode dizer sobre Macapá? 

 

A imbricação e indistinção entre aspectos privados e públicos, para não dizer o englobamento da esfera pública pela lógica privada, e sua consequência explícita e correlata na indistinção entre os planos CONCEITUAL X PESSOALevidente no comportamento público ao prêmio, coaduna-se para explicitar o modelo de socialidade subjacente a cena musical em específico e a Macapá no geral: trata-se de um modelo alicerçado em redes  de  interdependência  entre  os seus atores sociais em torno de um forte sentimento de co-pertença tanto simbólica quanto econômico-política, assim como em repertórios  e princípios existenciais cotidianamente atualizados e baseados na lógica do  parentesco, compadrio, vizinhança, dos CONCHAVOS E PANELINHAS. 

 

A supramencionada co-pertença pressupõe uma interação  intensa  e próxima típica de pequenos núcleos urbanos,  o que conflui para  uma PESSSOALIDADE ABSORVENTE: a proximidade em pequenas cidades  evoca uma tensão social entre as  individualidades  que reciprocamente  monitoram-se  em movimentos de mostrar-se, de esconder-se e de CEGAR-SE em conformidade com  as expectativas normativas da  ordem  moral vigente, tal como vimos na diferença entre o comportamento em redes sociais públicas e privadas. REPÚDIO PÚBLICO, RISO PRIVADO! Desta forma é a afirmação desta pessoalidade absorvente, enquanto princípio orientador da percepção coletiva, que erige a pessoa do autor como critério para a apreciação dos bens culturais e artísticos, com em um fenômeno do agrado cuja base   perpassa por um   sistema   de   cooperação   pautado   em   relações   de reciprocidade: ME ELOGIA QUE EU TE ELOGIO! Eis a formula química do coleguismo acrítico e castrador das potências artísticas! 

 

A CEGUEIRA DIPLOMÁTICA

Dado as especificidades do descrito modus vivendi que é produto do modelo de socialidade presente em Macapá, torna-se profundamente desafiador exercer o metier da crítica cultural por aqui, posto que o predomínio da pessoalidade, enquanto princípio orientador das percepções, se dá em detrimento da impessoalidade que surge como condição sine qua non para constituição de uma esfera pública, enquanto espaço de deliberação e intercambio de ideias, e para a formação de sujeitos capazes de operar um raciocínio de natureza efetivamente pública que opere as distinções categoriais entre público X privado; conceitual X pessoal; modelo X indivíduo, etc. Em realidade, possuímos evidências o suficiente para vociferar esta inquirição: HÁ EFETIVAMENTE UM ESPAÇO QUE PODE SER CLASSIFICADO COMO PÚBLICO NESTAS TERRAS?

 

Conforme alguns autores, dentre eles J. Habermas, espaço ou esfera pública diz respeito a uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o aparato burocrático-institucional do Estado, o sistema político e as esferas privadas da sociedade civil, e que possui em si uma estrutura comunicativa, podendo ser considerada um centro potencial de comunicação pública, que revela e produz um raciocínio de natureza pública. Esta esfera é absolutamente fundamental para o exercício da política, lato sensu, e da constituição de princípios democráticos, posto que é no bojo da esfera pública que se dá a formação democrática da opinião e da vontade política que surgem como os únicos meios de legitimação da democracia numa chave deliberativa. É a partir destes pressupostos comunicativos intrínsecos ao espaço público que os cidadãos reúnem-se para deliberações em torno de pautas sociais, questões políticas, para articulação de reivindicações em torno de tudo o que diz respeito a coexistência humana e a auto-organização política da sociedade civil. É o que alimenta a democracia, é onde cria-se a vontade geral, é o coração da política desde Rousseau!

 

Urge invocarmos o busílis da questão: como pensar a existência deste espaço público alicerçado nos princípios da impessoalidade, do raciocínio público, da res-pública, em um contexto marcado pela lógica dos conchavos e panelinhas, do ‘meu pirão primeiro’, do compadrio e da pessoalidade absorvente? Do domínio político-oligárquico de famílias na dinâmica política local? Do imobilismo popular frente aos problemas sociais como a mais alta taxa de pobreza e de mortos por ação policial proporcionalmente ao país? As respostas a estas questões transcendem os limites deste manifesto, deixo-as em aberto.

 

Voltando ao nosso escopo em específico, gostaríamos de conceituar um comportamento amplamente presente nestes contextos onde o público é um epifenômeno e a pessoalidade é intensa: na ausência de um termo melhor, propomos de denominar de CEGUEIRA DIPLOMÁTICA estes conjunto de estratégias comportamentais, discursivas e miméticas pelo qual os sujeitos se auto-censuram em suas reais opiniões/intenções passando a performar, senão simular, socialmente suas preferências e gostos visando tanto a reprodução/vivificação de sua rede de vínculos de reciprocidade, quanto corresponder às expectativas da moralidade coletiva. No plano estético, é uma forma de perpetuar a lambeção inerente aos coleguismos cotidianos e a conformação de uma bolha de conforto que, ao invés de instigar potências criativas, adormece e castra o artista, confortável que está no autoengodo do ‘tudo é belo’. Esta cegueira não é adquirida, mas o próprio acometido comete a truculência de cegar-se, trata-se de uma violência para consigo mesmo, na medida em que precisa sustentar posturas e opiniões estranhas a si e que em essência não lhe é verdadeira: o Eu é engolido pelo Nós, não há uma afirmação estética de si, tampouco divergências, o que impera é a obrigatoriedade de fazer parte das mútuas lambeções sob pena de chocar a moralidade pública, como o fizemos! 

 

Apesar de ser construída tendo como referência empírica a cena cultural, a cegueira diplomática é mais evidente no campo político local: pergunto ao leitor, quantas pessoas nestas terras assumem a cegueira como diplomacia, reprimindo suas reais opiniões visando apoiar causas/projetos/candidatos que lhes são estranhos em prol da reprodução de uma rede relações de apoio, um cargo ou algum tipo de benefício? Talvez Saramago, em seu ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, tenha antevisto esta cegueira diplomática quando provocou-nos: 

 

PORQUE FOI QUE CEGAMOS, NÃO SEI, TALVEZ UM DIA SE CHEGUE À RAZÃO, QUERES QUE TE DIGA O QUE PENSO, DIZ, PENSO QUE NÃO CEGAMOS, PENSO QUE ESTAMOS CEGOS, CEGOS QUE VEEM, CEGOS QUE, VENDO, NÃO VEEM”.

Fim.

Comentários

  1. Parabéns meninos, textos bastante interessantes! Só me incomoda a necessidade de um vocabulário tão rebuscado. Dá pra ser inteligente e valorizar a socialização do conhecimento ao mesmo tempo... Verborrágico tem a ver com falas longas e não com falas difíceis, até onde entendo né... Tudo bem querer falar pra apenas um punhado de pessoas entenderem (vai de cada um) mas aí, seria bom então decidir se vão de encontro ou ao encontro do colonialismo das ideias. Senão a "síndrome de papagaio", apesar de não aparecer no conteúdo (super autêntico, de qualidade inegável) fica gritante na forma (elitizada, excludente e obsoleta) da comunicação. A propósito, o prêmio Noni foi uma verdadeira aula sobre música pra mim. Até consegui ignorar o pedantismo da linguagem rsrs De qualquer estão fazendo um movimento interessante, só não esqueçam que apontar falhas e ausências é sempre a postura mais fácil. Visto isso, deixo a questão: Como usar todo o conhecimento reunido aqui (só perqueno foda) pra potencializar o que é "bom" em vez de reforçar o que é "ruim"? Ou mesmo como analisar e questionar o que é ruim, mas sem deixar de mobilizar potências a partir de presenças? Enfim, me trouxeram várias reflexões e alguns incômodos, e o que me incomoda costuma me atrair e interessar bastante. Valeus!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Velho Rágico é grato ao retorno crítico, porém faz-se necessário jogar luzes em pontos obscuros do vosso comentário: 1) o uso do português formal e pedante é nitidamente proposital, é um ideal e o modelo estético deste corpo de ideias que atribui a si um nome de valoração negativa, qual seja: verborrágico. As verborragias são enérgicas, exasperadas e hiperbólicas! Nada mais coerente conosco! 2) A escrita do português formal é uma forma de provocação política e até ontológica nesta era da Tiktokzação omnipresente, a necessidade de um português 'rebuscado' é resposta imediata a necessidade de tornar tudo palatável e autoevidente em 15 segundos, tal como demanda as dinâmicas deste capitalismo de vigilância que transforma a atenção humana em mercadoria, isto a partir das plataformas digitais cada vez mais pensadas para prender o usuário! A escrita densa objetiva incomodar, causar o desconforto inerente ao processo de assimilação de novas ideias e ao aprendizado, ela quer instigar o leitor a emputecer-se e entender com ódio do que diabos estamos falando. 4) Muitíssimo interessante o(a) autor(a) trazer a síndrome do papagaio de forma crítica, porém sua interpretação destoa do sentido original do conceito: este não diz respeito a forma de comunicação, o busílis recai inteiramente no conteúdo! Diz respeito a postura do sujeito criador ao articular as referências herdadas da tradição e a sua própria realidade empírica, isto no ato criativo. A síndrome aparece quando o sujeito criador negligencia sua própria realidade fazendo apologia a tradição estabelecida, repetindo o já dito. Aqui nós fizemos o movimento contrário, instrumentalizamos conceitos da tradição, não para uma apologia diletante, mas para tornar inteligível e enfatizar/afirmar fenômenos da realidade local, fazendo apologia ao empírico em detrimento do panteão de referências. Quanto aos questionamentos que findam o comentário, nós tratamos disto no início deste presente manifesto: estamos apenas arando o terreno para futura boa colheita.

      Excluir
  2. Não esperava menos do Barriga, isso daí é sociologia aplicada mas também é humorístico, muito legal feras! Ei Verborrágico me deixa publicar também rsrs

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prêmio Noni de Ouro #1: o melhor do pior da música feita em terras amapaenses.

Proto-abstrações: Capitalisme et Schizophrénie ou fundamentos de uma antissociologia da Guerra.