Proto-abstrações: a dupla torção do samba/fado ou como fazer antropologia bêbado.

 verborrágico

A dupla torção do samba/fado ou como fazer antropologia bêbado.

 

por Vinicius Barriga

01 de abril de 2023

 

Por entre as enfadonhas ladeiras revestidas de ladrilhos, as não menos conhecidas pedras portuguesas, perdia-me numa apreciação deambulante do neoclassicismo da arquitetura pombalina ao barroco, estas estéticas que sobressaem-se no patrimônio material de Lisboa histórica: vejam quão belo é as ruínas deste decadente império colonial, pensei.  Ora, confesso-vos que em um desses dias liminares – aqueles que estás demasiado cansado do agastamento cotidiano – após generosas apologias as vinícolas, estava voltando de Caís do Sodré, região boêmia próxima ao rio Tejo, nessas caminhadas ébrias do bar a estação de trem, percebo-me contemplando novamente estas estruturas arquitetônicas e, de forma sub-reptícia, arrematou sê-me um sentimento ambíguo e simultâneo de estranhamento-familiaridade: como posso sentir familiaridade com este lugar, se nunca estive cá? Tudo se passava precisamente como a descrição psicanalítica da postura egóica frente ao desconhecido, estava a encarnar a noção freudiana do Estranho-Familiar. Até, finalmente, para meu alívio, aperceber-me das semelhanças entre o padrão estético-urbano do locus percorrido e alguns aspectos da arquitetônica da região central de Belém do Pará, no Brasil, e lembrei-me mesmo – em um desses momentos onde uma centelha de lucidez cintila em meio a intoxicação alcoólica – do inoportuno processo diacrônico e mercantilista de transplantação do modelo (in)civilizacional português ao ultramar, notadamente a Amazônia: a tentativa cósmica e divina da Lusitânia criar as colônias a sua imagem e semelhança.  Aqui refiro aos quiosques de metal, o planejamento urbano, os estilos arquitetônicos, os paralelepípedos e outras minúcias transportadas da península ibérica à foz do Amazonas. Resolvia, portanto, e para a felicidade de meu ego, o que estava por trás da sensação iminente de já ter visto algo semelhante a aquilo tudo alhures. 


Entretanto, pelos preocupantes e recorrentes delírios estruturalistas que assaltam a minha tranquilidade e sanidade – aquele que impede um conformismo do sujeito com as premissas de suas próprias suposições, numa negação eterna de si – somado ao meu estado anti-estrutural de estrangeiro num outro Estado-nação e mesmo o sentimento esquizoide e ambivalente de ser filho da colônia nos interstícios da metrópole, o epicentro das políticas coloniais, eu passei a suspeitar que o par estranhamento/familiaridade incitava determinados fenômenos para além duma mera confusão alcoólico-mnemônica-individual – sempre duvide dos tropos psicanalíticos. Dimensionava, antes, algumas especificidades das relações simbólicas – toda relação é simbólica, posto que toda diferença é política – estabelecidas entre Portugal/Brasil num contexto macrohistórico. Outrossim, quero dizer, a minha confusão enquanto sujeito formado num sistema de convenções específico, um nome mais apropriado para cultura, ao estabelecer contato com outro sistema de convenções, só poderia disto resultar aquilo que chamaríamos de choque cultural. O que dimensiona, não uma descarga elétrica – ainda bem –, mas tão somente os efeitos e deformações inerentes ao contato e relação entre ambos sistemas do par Brasil/Portugal, assim como as relações estabelecidas entre estas mesmas relações:  não estou aqui falando duma contemplação da diversidade cultural, isto é, não estou apenas chamando a atenção para o espanto do desvelamento das variações relacionais entre as culturas, um nome mais apropriado para diversidade cultural, mas enfatizo as próprias relações variacionais, digo, estas variações também relacionam. Perdoem-me a manobra linguística, mas se faz necessário para não recair num psicologismo barato. O ponto é: a confusão que me assaltou dizia respeito não a mero estado psicológico individual, mas tratava-se das repercussões ou traduções no psiquismo individual, de uma relação propriamente simbólica entre sistema de macroconvenções, isto é, entre culturas. Eis o lugar onde acontece a antropologia. 


Após curar-me da pretensa bebedeira, passei a pensar mais detidamente nas implicações e especificidades relacionais e simbólicas do colonialismo português que “criou” civilizações ao redor do novo mundo a partir de seus próprios moldes, pensamento este sem rigor algum apenas livres-associações tal como este texto. Eis o dano cerebral que o excesso de Lévi-Strauss & companhia ocasiona: perguntei-me, seriam as especificidades do ethos brasileiro uma combinação possível das relações organizadas pela sintaxe oriunda do colonialismo português? Quero perguntar, para além do nível do conteúdo lexical do caleidoscópio cultural brasileiro, como pensar as implicações do colonialismo português ao nível dos princípios e formas estruturais de articulação de relações e relações de relações numa estrutura?      Sem desconsiderar outros fluxos culturais. A primeira pergunta é retórica, a segunda uma aporia. 


Em outras palavras, isolado ao componente relacional do colonialismo lusitano, seria o Brasil uma transformação por dupla torção, isto é, simétrica e inversa, de Portugal? Estas perguntas aparentemente abstratas, são eminentemente empíricas e fazem parte destas inquietações etnográficas do dia-a-dia e das análises comparativas inconscientes que eventualmente efetuo entre as variações na socialidade em vigor nos dois países. Ao leitor que nunca conheceu a cultura portuguesa proponho-lhe um exercício estruturalista, para se aproximar do que é a ideia média do que seja um português basta inverter simetricamente a ideia média do que é um brasileiro. 


Um exemplo prático é fazermos uma rápida microssociologia do “Não”. Imagine uma situação mediana: estás num rolê, com bons amigos bebendo um clássico litrão e então, no fluxo conversacional, surge um convite que lhe soa inconveniente: o ethos brasileiro induz uma diplomacia interacional que rejeita a possibilidade da sinceridade imediata de um “não”. Tangencia-se, desconversa-se, finge-se um ataque epilético, mas pelas próprias normas tácitas das relações interpessoais não se nega in loco o convite, posto que soaria como grosseiro: há sempre um “vamos marcar”, “vou dar uma passada lá” ou um “me manda mensagem”, a negação quando ocorre é (quase) sempre a posteriori e (quase) sempre acompanhada de uma boa justificativa – para adentrar no que há por trás desta minúcia sugiro o texto sobre nosso conceito de Cegueira Diplomática. Do outro lado do oceano, uma situação média de interação com portugueses, supõem o exato inverso simétrico. O “não” está muito longe possuir esta conotação negativa, o senso ético e diplomático português permitem vociferar um “não” ríspido, incisivo e in loco. Deve-se negar o que é para ser negado, inobstante soaria negativo uma tentativa de contornar um “não” usando de subterfúgios que são aceitos pelo senso ético brasileiro mas rejeitados pelo português. Conforme o esquema interpretativo lusitano é de bom tom simplesmente lançar-lhes um “Não”, simples e claro, sem nenhuma delonga, este “não” vale em si mesmo. Não fortuitamente, não é preciso ser um etnógrafo para perceber que muitos comportamentos que seriam considerados absolutamente grosseiros pelo esquema interpretativo brasileiro, são signos e dignos da alcunha de bom senso nestas terras. O ethos brasileiro é maleável e metafórico, o português rígido e literal. 


Inobstante, inquirir-nos-emos, a fim de visualizar esta inversão simétrica de outra forma, um dos aspectos cruciais para se entrever estas relações entre relações, refiro-me as diferenças na ancestralidade musical de ambos os países, que não poderia ser expressa senão nos termos da oposição Fado/Samba, uma das variantes da antinomia entre Portugalidade/Brasilidade, que por sua vez deriva dos opostos Latinidade/Europeidade: o Fado está para Portugal, como o Samba está para o Brasil, ambos subjazem e muitas vezes embotam-se com a própria ideia respectivamente de portugalidade e brasilidade. Destarte, o primeiro termo do par de oposição, o Fado, expressa uma profunda melancolia contemplativa, na solidão duma voz quase solipsista lentamente cantada na companhia dos timbres medievais da guitarra portuguesa. Versando sobre ausência, solidão e dificuldades existenciais, o Fado é a expressão-mor do ressentimento e nostalgia portuguesa pós-colonial. Vê-se, então, o Samba, pujante e saltitante, dançante, usualmente cantado por uma polifonia de vozes, ritmado por uma trama complexa e pluríssona de diversas percussões de raízes afro, numa musicalização da quase extinta malandragem e do gingado brasiliísta. Versando sobre alegria, comicidade, amor e boêmia, o Samba é um contra-fado que não se resigna ao mero lamento do absurdismo existencial, mas propõem-se como afirmação do devir e dança sob o non-sense. Precisamente onde o Fado chora, o Samba ri. 

 

Com que voz chorarei

meus males tão presentes,

que a alma toda consome,

que a dor de tê-los sentes?

Ai, quem me dera encontrar

o remédio para mim,

que eu possa bem repousar

e não estar sempre assim.

 

Ai, que dores no meu peito,

ai, que ânsias no meu ser!

Ai, que medos, que receios

que eu tenho de lhe perder!

Ó minha mãe, minha amiga,

vós que tanto amor me dais,

ajudai-me neste pranto,

ajudai-me neste país.

 

Com que voz chorarei meu triste fado

Que em tão dura paixão me sepultou

Que mor não seja a dor que me deixou o tempo

Que me deixou o tempo de meu bem desenganado

 

De meu bem desenganado

Mas chorar não se estima neste estado

Aonde suspirar nunca aproveitou

Triste quero viver, pois se mudou em tristeza

Pois se mudou em tristeza a alegria do passado

A alegria do passado

 

De tanto mal, a causa é amor puro

Devido a quem de mim tenho ausente

Por quem a vida e bens dele aventuro

Por quem a vida e bens dele aventuro

 

Com que voz chorarei meu triste fado

Que em tão dura paixão me sepultou

Que mor não seja a dor que me deixou o tempo

Que me deixou o tempo de meu bem desenganado

De meu bem desenganado, desenganado

 

Cantava Amália Rodrigues em "Com Que Voz" neste clássico Fado, conhecidíssimo em terras lusitanas. Para além de suas múltiplas facetas, este Fado exorta uma determinada postura existencial perante os tais males tão presentes: atesta uma resignação e um conformismo um tanto fatalista, chora-se e lamenta-se pela inevitabilidade da dor, o Fado parece exortar um não-eu lírico – Fitche certamente gostaria de ouvir – na medida em que extirpa a capacidade de agência deste sujeito que, impedido de (re)agir, sofre e clama por remédios e por seu grupo de parentesco primário – aos olhos brasileiros o tal é o clássico pimbudo que chama a mamãe, com todo respeito improvável leitor português – o Fado, esta sobrevivência medieva, parece ser o epitáfio medonho duma alma inerte e tetraplégica perante sua própria canibalização pelas dores, talvez, nem tão presentes. Parece-me que o não-eu lírico está próximo a este estado de contra-ataraxia ou ataraxia inversa, eis o Fado este anti-estoicismo par excellence.         


Eu fico com a pureza

Da resposta das crianças

É a vida, é bonita

E é bonita

 

Viver e não ter a vergonha

De ser feliz

Cantar, e cantar, e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz

 

Ah, meu Deus!

Eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor

E será!

 

Mas isso não impede

Que eu repita

É bonita, é bonita

E é bonita

 

E a vida, e a vida o que é?

Diga lá, meu irmão

Ela é a batida de um coração

Ela é uma doce ilusão

Êh! Ôh!

 

E a vida

Ela é maravilha ou é sofrimento?

Ela é alegria ou lamento?

O que é? O que é, meu irmão?

 

Há quem fale que a vida da gente

É um nada no mundo

É uma gota, é um tempo

Que nem dá um segundo

 

Há quem fale que é um divino

Mistério profundo

É o sopro do criador

Numa atitude repleta de amor

 

Você diz que é luta e prazer

Ele diz que a vida é viver

Ela diz que melhor é morrer

Pois amada não é e o verbo é sofrer

 

Eu só sei que confio na moça

E na moça eu ponho a força da fé

Somos nós que fazemos a vida

Como der, ou puder, ou quiser

 

Sempre desejada

Por mais que esteja errada

Ninguém quer a morte

Só saúde e sorte

 

E a pergunta roda

E a cabeça agita

Eu fico com a pureza

Da resposta das crianças

É a vida, é bonita

E é bonita

 

“O que é o que é” um clássico de Gonzaguinha, remete-nos ao Samba, uma das expressões que fundamentam uma determinada ideia de identidade nacional ou o que faz o Brasil ser Brasil. Não é preciso muito esforço para perceber a explícita dupla torção inerente a relação entre o par de opostos Samba/Fado. Numa apreciação dos aspectos musicológicos, o solipsismo monofônico da lamentação do Fado é absolutamente subvertido e contrastado pela polifonia de vozes que entoam as letras de Gonzaguinha, de forma a subsumir sua voz numa miscelânia de vozes outras. Em outros termos, o Samba subsome o indivíduo no coletivo, não há propriamente um eu mas um nós-lírico. Como nas pulsões dionisíacas, o samba parece canibalizar a individualidade, não para recair em um niilismo passivo como no Fado, mas para entrever em si a comunidade, para fazer do eu um epifenômeno do nós, da rapaziada. As imbricações da complexa dinâmica rítmica das percussões com os acordes intricados da melodia embriagada preenchem a experiência auditiva do Samba, contrastando com a quase ausência de elementos rítmicos e, por conseguinte, que fazem do Fado um vazio, um oco. Em uma dimensão mais etnográfica, a postura existencial que este Samba exorta propõem-nos uma afirmação e altivez perante a vida, para além da contemplação absurdista lusitana, recupera, ainda, a capacidade de agência do sujeito na medida em que afirma que “somos nós que fazemos a vida”. 

 

Ainda, proponho-vos, que os pares dicotômicos presentes na letra – alegria/tristeza, viver/morrer, luta/prazer – dimensionam uma estrutura binária e uma organização que constroem uma estrutura significativa onde a vida, pela ótica brasileira, é apresentada como este constante equilíbrio de opostos, no qual o eu-lírico exerce um papel fundamental em seus agenciamentos como sujeito: a vida sendo este equilibrar constante, o agente deve alcançar esta homeostase ontológica utilizando todos os recursos disponíveis, a performance, o improviso, o jeitinho e a maleabilidade. Isto é, enquanto o Samba está propondo uma sociologia transacional/relacional e pós-estruturalista, o Fado perdeu-se em si mesmo na masturbação narcísica e filosófica do absurdismo gélido. Esta dupla torção é nítida quando brincamos com a semântica destes termos opostos, basta duas letras para o Fado tornar-se “enfado”, este cansaço, desgaste, mal-estar ou fadiga espiritual, por outro lado, basta uma letra para o substantivo Samba transmutar-se em verbo, sambar, esta técnica corpórea reluzente e festiva que dimensiona a pujança da brasilidade aguerrida e exemplar da radicalidade latino-americana.

 

O que é o que é, este Samba diz-nos sobre nós próprios, os brasileiros, digo, os brasileiros do Brasil com S – sobre a diferença entre Brasil e Brazil ver a coluna Noções Subversivas #1 – os que possuem a latinidade enquanto postura política existencial, nós os filhos do Brasil indígena, nós que acreditamos que o futuro é latino-americano e africano: nós somos estes que não se resignam perante obstáculos, permanecemos altivos. Enquanto o Fado diz-nos “viver é sofrer”, o Samba, diz, portanto, se a vida é isto aí, “sobreviver é construir um sentido e sambar sobre este mesmo sofrer”. 

 

Em suma, a tese de que a cultura brasileira em grande parte nutre-se duma dupla torção, ou inversão simétrica, das implicações do colonialismo lusitano pode ser entrevista para além das diferenciações do par Samba/Fado e certamente retornará nos próximos escritos. Não esgotarei o tema aqui para que vocês, leitores, acompanhem os próximos textos da coluna Proto-Abstrações. Como esta dupla torção, aqui perspectivada a partir da música, pode ser acionada para pensar instituições macrossociológicas? Como o Estado e a Polícia. Interessa-te? Até a próxima. 

 

Fim.




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